Combinação de agrotóxicos encurta a vida e modifica comportamento de abelhas

Estudo mostrou que dose não letal de inseticida clotianidina
reduz em até 50% o tempo de vida dos insetos; uso associado com o fungicida
piraclostrobin altera comportamento das operárias e pode comprometer a colmeia

Um novo estudo realizado por biólogos brasileiros sugere que
o efeito dos agrotóxicos sobre as abelhas pode ser maior do que se imagina.
Mesmo quando usado em doses consideradas não letais, um inseticida encurtou o
tempo de vida dos insetos em até 50%. Além disso, os pesquisadores observaram que
uma substância fungicida considerada inofensiva para abelhas alterou o
comportamento das operárias, tornando-as letárgicas – fato que pode comprometer
o funcionamento de toda a colônia.

Resultados da pesquisa foram publicados na revista
Scientific Reports, do grupo Nature. O trabalho foi coordenado por Elaine
Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. Também participaram pesquisadores da
Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

A Fapesp apoiou a investigação por meio do Projeto Temático
“Interações abelha-agricultura: perspectivas para a utilização sustentável”,
coordenado pelo professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro. Também houve
financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes) e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis).

É um fato conhecido que diversas espécies de abelhas estão
desaparecendo em todo o mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, o fenômeno tem
sido observado desde o ano 2000. No Brasil, desde pelo menos 2005.

No Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de
2019, foi registrada a perda de aproximadamente 5 mil colmeias – algo
equivalente a 400 milhões de abelhas.

E não estão desaparecendo apenas os indivíduos da espécie
Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal responsável pela produção
comercial de mel. Nas matas brasileiras, há centenas de espécies selvagens
possivelmente afetadas. O impacto econômico previsto é imenso, pois grande
parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado por esses
insetos. É o caso, por exemplo, de todas as frutas comestíveis.

A causa do sumiço repentino em massa também já é conhecida:
a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. Compostos
químicos como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas contaminam as
abelhas que saem da colônia em busca de pólen e acabam atingindo toda a colmeia.
Uma vez dentro da colônia, tais compostos são ingeridos pelas larvas,
comprometendo sua longevidade e o funcionamento da colônia como um todo.

“No Brasil, as monoculturas de soja, milho e cana dependem
do uso intensivo de inseticidas. A contaminação das colônias de abelhas ocorre
quando, por exemplo, os agricultores não respeitam uma margem de segurança
mínima (são recomendados 250 metros) na aplicação de defensivos agrícolas entre
as lavouras e as áreas florestais que as margeiam. Tem gente que aplica produtos
químicos até o limite da floresta”, disse Malaspina.

“Na Europa e nos Estados Unidos, as colônias de abelhas
morrem aos poucos. Desde a constatação inicial da morte das primeiras abelhas
até a morte da colônia pode levar um mês ou até cinco meses. No Brasil não é
assim. Aqui, as colmeias desaparecem em apenas 24 ou 48 horas. Não existe
nenhuma doença capaz de matar uma colmeia inteira em 24 horas. Só inseticidas
podem provocar isso”, disse.

Malaspina destaca que há mais de 600 tipos de ingredientes ativos
em inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas usados no Brasil.

“É impossível testar em laboratório a ação de cada um deles.
Não há dinheiro para isso”, disse.

No Projeto Colmeia Viva, entre os anos de 2014 e 2017, foi
realizado um estudo para identificar, dentre os 44 ingredientes ativos mais
usados na agricultura paulista, quais poderiam estar relacionados à mortalidade
das abelhas. Foram detectados oito ingredientes com ação comprovadamente letal
para os apiários.

A equipe do projeto coletou material em 78 municípios
paulistas. Trabalhando com os apicultores, os agricultores e a indústria de
defensivos, os pesquisadores recomendaram uma série de ações para proteger
apiários, como a observação de margens de mínima segurança na aplicação de agrotóxicos
e de boas práticas agrícolas.

Uso associado de defensivos

Segundo os cientistas, os efeitos benéficos do Projeto
Colmeia Viva podem estar começando a surgir. No mesmo período em que sumiram as
5 mil colônias de abelhas no Rio Grandes do Sul, as perdas foram menores nos
estados de Santa Catarina e Paraná – entre os apicultores paulistas o impacto
foi ainda mais reduzido.

“Mas isso não quer dizer que as abelhas de São Paulo estão a
salvo dos defensivos agrícolas. Longe disso. Estamos começando a testar quais
são os efeitos sobre as abelhas melíferas do uso associado de inseticidas com
fungicidas. E já descobrimos que um determinado tipo de fungicida, que quando
aplicado de modo isolado no campo é inofensivo às colmeias, ao ser associado a
um determinado inseticida se torna nocivo. Não chega a matar as abelhas como os
inseticidas, mas altera o comportamento dos insetos, comprometendo a colônia”,
disse Zacarin.

Os ingredientes ativos investigados foram a clotianidina,
inseticida usado para controle de pragas nas culturas de algodão, feijão, milho
e soja, e o fungicida piraclostrobina, aplicado nas folhas da maioria das
culturas de grãos, frutas, legumes e vegetais.

“Realizamos ensaios de toxicidade de agrotóxicos em larvas
de abelhas e em concentrações ambientais relevantes, ou seja, concentrações
realistas, como as encontradas residualmente no pólen das flores”, disse
Zacarin.

A observação é importante. Qualquer agrotóxico em grandes
concentrações dizima colmeias quase imediatamente. Mas o que os pesquisadores
estudam são os efeitos sutis e de médio a longo prazo sobre as colmeias. “O que
nos interessa é descobrir a ação residual dos agrotóxicos, mesmo em
concentrações baixíssimas, sobre esses insetos”, disse Zacarin.

Mudança de comportamento

Os testes foram todos feitos in vitro, com insetos
confinados dentro de laboratórios para não ocorrer contaminação ambiental.
Nessas condições, larvas de Apis mellifera foram separadas em grupos diferentes
e alimentadas entre o terceiro e o sexto dia de vida com uma dieta composta de
açúcar e geleia real. O que variou foi o tipo de ingrediente tóxico presente no
alimento, sempre em concentrações diminutas, na faixa de nanogramas
(bilionésimos de grama).

A dieta do grupo controle não continha agrotóxico. No segundo
grupo, a dieta foi contaminada com o inseticida clotianidina. No terceiro
grupo, a contaminação foi por fungicida (piraclostrobina). E, no quarto grupo,
havia uma associação do inseticida com o fungicida.

“Depois do sexto dia de vida, as larvas se tornam pupas e
entram em metamorfose, de onde emergem como operárias adultas. No campo, uma
abelha operária vive em média 45 dias. Em laboratório, confinada, vive menos.
Mas os insetos alimentados com a dieta contaminada pelo inseticida clotianidina
em baixíssima concentração apresentaram tempo de vida drasticamente menor, de
até 50%”, disse Zacarin.

Já entre as larvas alimentadas com a dieta contaminada
apenas pelo fungicida piraclostrobina não se observou nenhum efeito sobre o
tempo de vida das operárias.

“Com base apenas nesse resultado, poderíamos imaginar que o
fungicida em baixa concentração é inofensivo às abelhas. Infelizmente, não é o
que ocorre”, disse a pesquisadora.

Nenhuma abelha morreu na fase de larva e de pupa. Porém,
verificou-se que, na fase adulta, as operárias sofreram modificação em seu
comportamento. Elas se tornaram mais lentas do que os insetos do grupo
controle.

“As operárias jovens fazem inspeções diárias na colmeia, o
que as leva a percorrer certa distância. Elas se movimentam bastante dentro da
colônia. Verificamos que, no caso das abelhas contaminadas tanto pelo fungicida
sozinho ou associado ao inseticida, à distância percorrida e a velocidade foram
muito menores”, disse Zacarin.

Caso o mesmo ocorra no meio ambiente com parte considerável
das operárias de uma colmeia, tal alteração de comportamento acabaria por
prejudicar o funcionamento de toda a colônia. Essa pode ser uma das razões da
extinção em massa de abelhas.

Ainda não se sabe de que forma o fungicida age para
comprometer o comportamento das abelhas. “Nossa hipótese é que a
piraclostrobina, quando associada a um inseticida, diminuiria o metabolismo
energético das abelhas. Novos estudos em andamento podem vir a elucidar esse
mecanismo”, disse Zacarin.

O artigo Late effect of larval co-exposure to the
insecticide clothianidin and fungicide pyraclostrobin in Africanized Apis
mellifera (doi: https://doi.org/10.1038/s41598-019-39383-z), de Rafaela
Tadei, Caio E. C. Domingues, José Bruno Malaquias, Erasnilson Vieira Camilo,
Osmar Malaspina e Elaine C. M. Silva-Zacarin, está publicado em: www.nature.com/articles/s41598-019-39383-z.

(Fonte: Federação Nacional dos Engenheiros).