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Entre laudos divergentes, o estádio deve passar por reformas e ficar interditado por pelo menos 18 meses. Reportagem ouviu o projetista Flávio DAlambert, a RioUrbe, a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Abece sobre a polêmica

A Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro e o Consórcio Engenhão anunciaram nesta sexta-feira (7) que o Estádio João Havelange, conhecido como Engenhão, deverá passar por uma reforma de 18 meses e que ficará interditado neste período. A decisão coloca fim a uma grande polêmica sobre os laudos a respeito do real estado do estádio.

O projeto da cobertura metálica da arena foi realizado pela Alpha Projetos, do engenheiro Flávio D”Alambert, sob a supervisão do consórcio formado pelas construtoras Delta, Racional e Recoma.

O ponto crucial da obra foi o dimensionamento e a produção dos arcos principais que sustentam a cobertura. A estrutura é composta por quatro grandes arcos tubulares, que através de tirantes de suspensão suportam 42 tesouras treliçadas com 50 metros de comprimento formando um anel arqueado para apoio do sistema de cobertura.

Ainda sob cuidado do consórcio liderado pela Delta, o responsável pelo cálculo da cobertura, Flávio D’Alambert, indicou que fosse feito um ensaio em túnel de vento para a determinação correta dos carregamentos sobre a cobertura. Foram realizados testes em modelo reduzido no túnel de vento do laboratório Rowan Williams Davies & Irwin Inc. (RWDI), do Canadá, considerando vento centenário e após várias análises determinou-se a adoção de 16 carregamentos. Entre eles:

1 a e 1b = sobrepressão
2 a e 2b = sucção
3 a, 3 b e 3 c = Desbalanceamento em relação ao eixo x-x (Leste- Oeste)
4 a, 4 b e 4 c = Desbalanceamento em relação ao eixo Y-Y (Norte-Sul)
5 – Desbalanceamento de ¼ da cobertura (modos de vibração 3 e 4)
6 – Modo 2 da frequência natural e 7 a 10 efeitos localizados de grande intensidade

No final de 2004, foi contratado um auditor de projeto. Por causa da similaridade com a cobertura do estádio do Benfica, foi escolhida a empresa portuguesa TAL Projectos, que participou do projeto português. O relatório final recomendou o monitoramento constante do arco e reconheceu os problemas: “É sabido que todo o processo de execução do projeto e de construção da cobertura do Estádio Olímpico João Havelange passou por inúmeras vicissitudes”.

D’Alambert confirma que a obra foi aprovada pelos auditores mesmo com os problemas apontados: “Ao final, ele (o escritório português) deu a chancela dele e então foi auditando a construção propriamente dita”.

Sai a Delta, entra a Odebrecht

No final de 2006, faltando apenas alguns meses para a entrega do estádio, a Delta se retirou e um novo consórcio formado pela OAS e Odebrecht assumiu a construção. No entanto, o projeto já tinha sido contratado na totalidade, inclusive o material a ser usado na construção. “Faltava mais ou menos 70% do Estádio a ser construído”, segundo D’Alambert.

“Houve um espaço de tempo muito grande entre a descompatibilização do consórcio e a entrada do outro. Isso gerou uma série de problemas, especificamente do ponto de vista técnico. O procedimento de montagem teve que mudar, teve que mudar procedimento de escoramento e instalação dos carregamentos. Tudo isso era acompanhado de perto pelo auditor, por mim e por quem estava fazendo projeto de fabricação”, narra o projetista da cobertura.

Construção e entrega

A tradução da construção em um modelo matemático é quase impossível, segundo o especialista: “Estamos falando de arcos de 2 m de diâmetro que precisavam ser divididos em quadrantes, com quatro soldadores por vez, trabalhando de forma cruzada e com vários passes de solda. Eram oito passes em alguns casos. Tudo para que a peça entrasse simetricamente em carga, em tensões residuais”. Segundo o projetista, a temperatura no momento em que as peças estavam sendo soldadas influenciaria no trabalho e modificaria o resultado. “À noite, com 20 graus é completamente diferente, tem que mudar amperagem e tudo. O que eu estou dizendo é que tudo isso a gente não consegue traduzir no modelo matemático”.

Segundo D’Alambert, no percorrer do projeto foram desenvolvidos mais de 500 modelos estruturais com o objetivo de varrer todas as possibilidades de carregamento e de montagem. No momento do descimbramento dos lados Norte e Sul, a Coppetec da UFRJ monitorou a introdução de carga nos arcos através da colocação de 28 extensômetros. Após o descimbramento dos arcos, foram efetuadas contínuas e sistemáticas leituras topográficas dos deslocamentos nos diversos elementos da cobertura, sendo constantemente comparados os valores encontrados com a expectativa dos modelos estruturais. Ainda assim, durante a retirada do escoramento os técnicos perceberam um deslocamento da cobertura metálica diferente do previsto pelos projetistas e consultores.

Com o estádio entregue, D’Alambert emitiu um relatório com o Procedimento de Inspeção e Manutenção, onde foram listados todos os critérios necessários para aceitação da obra e acompanhamento, com procedimentos anuais, mensais e a cada cinco anos. “De forma geral, o que a gente pedia e recomendava era instrumentar a estrutura, verificar o desempenho dela. Já se falava em controle de deformações, instrumentação e, em vários momentos, falamos das observações de campo que estavam sendo feitas”, conta. “Se isso tivesse sido feito, hoje teríamos um histórico da estrutura e poderíamos sentar analisar a situação direito”, lamenta.

Em 2009, o relatório da empresa portuguesa Tal informou que o estádio deveria ser interditado sempre que os ventos fossem superiores a 115 km/h, considerados raros na cidade.

O projetista explica que a diferença na deformação não passa dos 23%: “O arco se estabilizou com uma deformação superior ao que a gente tinha previsto, sem dúvida nenhuma, mas isso é normal porque ele procura o equilíbrio geométrico dele. A deformação dele não aumentou nunca mais. Ele encontrou o ponto de equilíbrio”.

Interdição

Em 2010, o consórcio construtor decidiu ouvir uma nova opinião sobre o assunto e contratou a alemã Schlaich, Bergermann und Partner (SBP), que fez o projeto da cobertura do Maracanã, cujo consórcio é formado pela Odebrecht e a Andrade Gutierrez. A empresa elaborou um modelo de estudos e fez novos testes em túnel de vento para chegar a uma conclusão, entregue para a prefeitura do Rio de janeiro em abril de 2013, que levou a interdição do Engenhão.

ABECE

Foi após a divulgação deste relatório que a Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece) decidiu ir mais a fundo na história e encomendou com a empresa inglesa Building Research Establishment Ltd (BRE) um parecer sobre os laudos que foram emitidos sobre a cobertura. A BRE apontou que os resultados da Rowan Williams Davies & Irwin Inc. (RWDI), do Canadá, são mais críveis do que os da alemã Schlaich, Bergermann und Partner (SBP) e aponta algumas hipóteses:

1) O relatório da SBP, que serviu de base para a interdição do EOJH, desprezou integralmente os ensaios realizados pela RWDI;
2) Analisando-se os relatórios da RWDI e da Wacker encontram-se grandes diferenças nas matrizes de carregamento recomendadas pelos dois laboratórios, de tal sorte que, em determinados casos, a empresa Wacker apresenta, para as mesmas situações, resultados três vezes superiores aos encontrados nos ensaios da RWDI;
3) Fica claro que essas discrepâncias induziram a resultados divergentes  entre o projeto estrutural original e o parecer da SBP.

“Eu enxergo no relatório canadense três fases: a carga para calcular a telha, a tesoura e a carga para calcular o arco que recebe todas as tesouras. No relatório alemão, só enxerguei a telha e a tesoura. Não enxerguei o carregamento do arco. Isso levou a uma carga média muito maior na hora de calcular o arco e pode ter levado a achar que o arco estava errado”, constata Suely Bueno, presidente da associação.

Outro ponto levantado pela engenheira é que os coeficientes de segurança das normas brasileiras são, neste caso, menores que os números usados em outros países, o que pode ter levado a empresa alemã a cometer um equívoco usando outros parâmetros que não os brasileiros. “Isso tem até algumas razões. Aqui no Brasil não temos uma série de eventos da natureza que eles têm como a neve, tornados, terremotos e furacões”, analisa D’Alambert.

O documento da Abece foi entregue oficialmente para a Prefeitura, aos membros da comissão, no mês de maio.

Ventos

O vento tem papel central nessa história e o projetista da cobertura do Engenhão conta que fez uma pesquisa que aponta que acontecem no Rio de Janeiro, em média, quatro vezes por ano ventos de 60 km/h. “Ou seja, em seis anos aconteceram 240 ventos de rajada acima dos 60 km/h na cidade. Sendo que ventos acima de 100 km/h acontecem cerca de quatro a cinco vezes por ano. Em maio já tivemos dois ventos de mais de 100 km/h. Não dá para garantir que foi no estádio, que foi na direção, mas em 240 ocorrências é certeza que ele já foi solicitado por ventos bem acima do limite”.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que o 6º Distrito de Meteorologia não possui estação que faça a medição de ventos na região norte, onde fica o estádio: “Mas, conforme o levantamento de outras estações automáticas na zona oeste e sul, os ventos variaram de 68 a 100 Km/h”.

Procurado, o consórcio formado pela Odebrecht e OAS, disse que não falaria sobre o assunto. A Rio Urbes, responsável pelas obras da prefeitura, limitou-se a encaminhar a seguinte nota: “A RioUrbe, com base no laudo técnico apresentado pelo consórcio Engenhão, formado pelas construtoras Odebrecht e OAS, esclarece que o estudo elaborado pela empresa alemã SBP e levado ao conhecimento da Prefeitura do Rio apontou que a cobertura do estádio está sujeita a riscos se submetidas ventos em torno do eixo leste/oeste, com velocidade superior a 63 km/h, nas condições determinadas pela norma (rajadas de 3 segundos de duração, medidas a 10 metros do nível do terreno, em local aberto). O comportamento da cobertura do estádio continua sendo acompanhado através leituras topográficas.”

Segundo D’Alambert, o caminho agora é refazer os cálculos, com as premissas que foram adotadas em 2004 e usar norma brasileira. “Outra coisa importante é implementar o que foi solicitado no manual de manutenção e no laudo de entrega da obra: monitoramento, instrumentação, verificar o desempenho da estrutura. Se isso tivesse feito há seis anos, hoje estaríamos tranquilos”.

Resposta da prefeitura

A Prefeitura do Rio de Janeiro criou uma comissão para estudar o local e formular um parecer sobre a situação. Durante a coletiva realizada nesta sexta, o secretário municipal de obras Alexandre Pinto afirmou que erros de projeto causaram os problemas no estádio. Segundo ele, os consórcios envolvidos serão notificados e deverão arcar com os custos da obra.

De acordo com o material encaminhado pela RioUrbes, será feito o escoramento da estrutura para em seguida serem reforçados os tirantes do lado leste e oeste. O arco será encamisado para ganhar mais segurança e, por fim, será feito o reforço das tesouras.

O projetista Flávio D’Alambert não foi encontrado até às 18h desta sexta para falar sobre a decisão.

Tags : engenhãoerros da engenharia
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