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O engenheiro agrônomo e os desafios do agronegócio

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Com o aumento do agronegócio na economia brasileira, principalmente neste período de pandemia, existe uma maior valorização da atuação do engenheiro agrônomo. O papel deste profissional tem sido decisivo para que o Brasil esteja no posto de um dos maiores exportadores agrícolas do mundo. Com um curso que tem duração de cinco anos, o profissional está apto a trabalhar em centros de pesquisas, entidades ou empresas. Para sabermos mais sobre os desafios da profissão, entrevistamos o presidente da Associação de Engenheiros Agrônomos do Ceará (AEAC) e vice-presidente para o Nordeste da Confederação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil (CONFAEAB), Flávio Barreto.

Informativo Senge: Como o senhor vê o cenário da engenharia agronômica no Brasil? Quais são as oportunidades e setores de atuação possíveis?

Flávio Barreto: O consultor do CREA-ES, José Adílson de Oliveira, sempre coloca a agronomia no contexto da palestra muito divulgada, do vice-presidente da FIESP, José Ricardo Diniz Coelho, abordando as oito macrotendências mundiais.

Vou destacar inicialmente quatro: aumento de demanda de alimentos; aumento de demanda da energia; a mudança no padrão de produção; e a expansão do turismo. O engenheiro agrônomo é o profissional ícone da produção de alimentos com sustentabilidade; também o mais qualificado para a produção de energia renovável ou biocombustível. A mudança de padrão de produção de alimentos, fibras e bioenergia tem no engenheiro agrônomo uma presença definida, e o turismo rural e o ecoturismo são uma realidade crescente em todo o Brasil; e, para tanto, conta com a inteligência deste profissional.

Ele também está presente nas outras quatro tendências: urbanização de megacidades; infraestrutura moderna e competitiva; envelhecimento da população; e aumento das tensões geopolíticas.

IS: E no Ceará? Qual o cenário dessa engenharia no estado?

FB: O ascendente desenvolvimento experimentado pelo agronegócio cearense, com desempenhos extraordinários na fruticultura irrigada, na floricultura e na indústria de laticínios nos últimos anos, citando alguns, demonstra seu estreito relacionamento com os princípios da modernidade, fundamentados em bases científicas. Todos os segmentos do agronegócio de qualidade instalado no Ceará são frutos da sua estreita ligação com os centros colaboradores de comprovada excelência científica, nas diferentes áreas do conhecimento, incluindo os laboratórios de pesquisa das universidades e os centros de pesquisa da Embrapa no Ceará ou os centros de pesquisa de outros estados, e até mesmo do exterior, quando se fez necessário.

Mirando somente na agricultura irrigada em 2018, por exemplo, sua área plantada suplantou 70.000 hectares, e a produção superou 1,7 milhão de toneladas, com um VBP (Valor Bruto de Produção) acima de R$ 2,3 bilhões, o que representou 59% do total. A área de sequeiro, 20 vezes maior, apresentou um VBP de R$ 1,6 bilhão. Esse significativo desenvolvimento do agronegócio é respaldado em parte, segundo a FAEC, pela agricultura familiar, 220.000 agricultores, e pelos pequenos e médios produtores. No Ceará existem 400.000 estabelecimentos rurais. Esclarecemos ainda que a despeito do prolongado período de estiagem no estado, a agricultura irrigada tem apresentado significativo crescimento nos últimos anos, podendo acelerar nos próximos anos, sobretudo com as águas do Canal Norte do Projeto São Francisco, de Integração de Bacias.

Mas, apesar desse salto de qualidade, ainda há descompasso com a modernidade da agronomia. A Agricultura 4.0 adota recursos computacionais de alto nível tecnológico, nuvem e conectividade entre dispositivos móveis para gerar e processar dados que servirão de base para subsidiar decisões utilizando-se ferramentas ou equipamentos como Análise de Tempo, Telemetria, Biotecnologia, Sensores, GPS e drones, levando a resultados como maior produtividade, eficaz monitoramento de operações agrícolas, redução de custos, mais eficiência na utilização de insumos, aumento na segurança dos trabalhadores e menores impactos ambientais.
No início do segundo mandato do atual governador (2019-2022), a Associação de Engenheiros Agrônomos do Brasil (AEAC) sugeriu a implementação de ações consonantes com nosso nível tecnológico, mas de olho na modernidade, destacando-se a recriação da empresa de pesquisa agropecuária e o tratamento do setor primário com equidade, tal qual Saúde, Educação e Segurança. A entidade aguarda providências, lembrando que a assistência técnica, a extensão rural, o cooperativismo e o associativismo, apesar de práticas antigas, são imprescindíveis para a implantação da modernidade.

IS: Qual a importância da atuação do engenheiro agrônomo para a sociedade como um todo?

FB: O agrônomo é o pivô central da produção de alimentos, que não se dá somente no plantio. Impossível abordar esse tema sem lembrar a importância da EMBRAPA, empresa nascida da brilhante cabeça do ex-ministro da agricultura Alysson Paulinelli. Somente por meio da pesquisa agropecuária e de seus avanços tecnológicos, foi possível tornar um Brasil autossuficiente em alimentos, e ainda ser o maior exportador de vários produtos, o que enseja, anos após anos, o superávit da balança comercial nacional. Posso citar a soja, o algodão, sucos, carnes, dentre vários.

Fácil ver que a agropecuária, apesar da fundamental base tecnológica, depende também do empreendedorismo do produtor rural e dos profissionais que se dedicam à assistência técnica, um dos pontos nevrálgicos da política agrícola atual, e da sustentabilidade ambiental. A segurança alimentar e a alimentação saudável são cada dia mais cobrados pelos consumidores.

O agronegócio é um dos principais motores da economia brasileira. Em números, posso sintetizar o antes abordado: em 2019, representou 21,4% do PIB brasileiro. Cresceu quase 4% na comparação com o ano anterior, e foi a pecuária o maior destaque. De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), o ramo cresceu 23,7%, principalmente alavancado pela exportação de carne. É mais superavitário que a economia brasileira. Em 2018, o superávit da balança comercial do país alcançou 58,6 bilhões de dólares, enquanto o do agronegócio foi de 87,6 bilhões de dólares. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentos (FAO), até 2050 o Brasil irá produzir 40% da demanda mundial de alimentos, tornando-se o principal exportador do planeta. É um importante polo de vagas de trabalho em todo o Brasil, empregando cerca de 18,3 milhões de pessoas. Segundo levantamento do Cepea, a participação do agronegócio no mercado de trabalho brasileiro foi de 19,7% em 2019.

IS: Neste momento de pandemia, o quão importante foi o trabalho do engenheiro agrônomo?

FB: O momento ainda vem causando mudanças marcantes em todos os segmentos da economia. A agronomia está fortemente presente na produção de alimentos e na segurança alimentar, repito, sendo o agronegócio brasileiro o principal ícone da economia nacional. O campo não parou. Em entrevista anterior para esse mesmo informativo, eu falei: “O trabalho no campo é permanente. As plantas não param de florir nem o Engenheiro Agrônomo de doar seus conhecimentos técnicos para alimentar a humanidade. Continua atuando diretamente ou à distancia, quando obrigatório. As ações no campo têm outros decretos. Daí a categoria estar presente nas suas atividades, evidentemente cumprindo todos os cuidados inerentes à sua saúde.”

IS: Qual a relação entre a engenharia agronômica e a sustentabilidade, tema tão importante nos nossos tempos?

FB: A agronomia moderna não dispensa o convívio com o meio ambiente, preservando-o, respeitando-o. O histórico contemporâneo mostra que não se faz desenvolvimento sustentável exitoso sem o envolvimento efetivo do engenheiro agrônomo. Sua formação ampla nas ciências exatas, biológicas e humanas, confere-lhe capacidade ímpar, para trabalhar pela busca do equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

Sustentabilidade é a palavra do momento em muitas atividades, e, sem exagerar, no exercício de quase todas as profissões. Todas as nações, e notadamente as maiores do mundo, têm como exigência um crescimento econômico acelerado, que por vezes, ou quase sempre, entra em descompasso com as “boas maneiras” para com o meio ambiente. Os crimes ambientais existem. Na agricultura não é diferente. Diferente, sim, da década de 1960, quando a lei era produzir!

Hoje, graças ao novo foco dado à questão, a engenharia agronômica consciente trabalha em consonância com o meio ambiente, “parceiro”, para que produção e produtividade andem juntas. Ferramentas e implantação de técnicas conservacionistas possibilitam a manutenção do meio ambiente, mesmo com práticas mitigadoras, e o lucro para o produtor.

Ainda não são comuns no Nordeste, mas precisam ser em curto prazo, o plantio direto, a conservação das matas ciliares, o manejo integrado de pragas, o uso controlado de implementos, evitando a compactação do solo, outras fontes de adubação e tantas ações protecionistas do solo, água e ar.

Kleber Santos, presidente da Confederação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil-CONFAEAB, coloca muito bem: “o engenheiro agrônomo é o profissional que lida com engenharia e ciências biológicas, ou seja, é o profissional que sempre trabalha pela produção agropecuária, mas com olhar na natureza – porque lida e precisa conservar os recursos naturais.”

IS: O senhor pode falar um pouco sobre a sua carreira? Quando e em que universidade/curso o senhor se formou? Quais foram as suas principais experiências profissionais? Onde o senhor trabalha hoje?

FB: Vindo do Crato em 1966, com 17 anos de idade, após todas as etapas que antecedem, cursei e concluí Agronomia na antiga Escola de Agronomia da Universidade Federal do Ceará, em 1972. Foram no Maranhão os primeiros passos profissionais na ACAR-MA, depois EMATER-MA, onde até início de 1974 comecei a vida profissional, aprendendo um pouco, errando muito, planejando em demasia e sonhando e sofrendo em horas de indefinições, angústias por desconhecimento do novo mundo.

De volta ao Ceará, em 1974 fui admitido na ANCAR-CE, em Jaguaribe, e a partir do ano seguinte tive passagens pela SUNAB, SUDEPE (atual IBAMA), CEPESCA, CEDAP, CEASA e Secretaria de Agricultura do Ceará, como secretário-adjunto e titular, de 2003 a 2006, sem perder o vínculo com a sucessora da ANCAR, hoje EMATERCE.

Nesse longo período, sempre ocupando com muita honra cargos de direção, cursei Administração, Turismo e duas especializações, uma em Fortaleza (gestão ambiental), e outra na FGV (comercialização e crédito rural), e recusei convites para efetivar-me em órgãos da esfera federal, como Ibama e Embrapa, cujas razões existiram à época.

Na política profissional, servi honorificamente ao CREA-CE, como conselheiro, à Associação de Engenheiros Agrônomos do Ceará, onde fui conselheiro, secretário e presidente por três mandatos (atualmente concluindo o terceiro) e à nossa confederação, com sede em Brasília.

Com orgulho, em 2004 recebi a Medalha Guimarães Duque, a maior comenda da engenharia agronômica do Ceará e em dezembro de 2015 entrei para a Academia Cearense de Engenharia-ACE, como acadêmico fundador, cadeira nº 28.
Para encerrar, e para reflexão, lembro: ”o engenheiro agrônomo planta. A humanidade colhe”.

Eng. Agrônomo José Flávio Barreto de Melo
Presidente da Associação de Engenheiros Agrônomos do Ceará – AEAC
Vice-Presidente para o Nordeste da Confederação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil – (CONFAEAB)
Membro da Academia Cearense de Engenharia

Assessoria de comunicação

O Autor Assessoria de comunicação

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